A prática cruel do shark finning, isto é, retirar as barbatanas de tubarões, atirando seus corpos mutilados ao mar, tem origem dinástica. No período do ano 960 ao de 1279, durante a Dinastia Sung, uma pequena elite chinesa passou a consumir um tipo de macarrão gelatinoso, feito a partir da cartilagem das nadadeiras de tubarões. Essa iguaria ficou conhecida como “sopa de barbatana de tubarão”.
Naquele tempo o consumo dessa sopa era tão restrito que nunca poderia se tornar uma ameaça à espécie. Porém, o prato acabou se popularizando durante a famosa Dinastia Ming quando um navegador chinês, chamado Cheng Ho, trouxe da África uma enorme quantidade de barbatanas de tubarões, descartadas pelos pescadores africanos que só apreciavam a carne do animal. A partir daí o prato ganhou popularidade, sendo oferecido, com frequência, nos banquetes formais oferecidos pela elite dominante.
O quadro mudou quando Mao Tsé-Tung, do Partido Comunista Chinês, assumiu o poder em 1949. O prato, considerado politicamente incorreto por fazer parte dos hábitos de uma elite, acabou sendo desaprovado pela Revolução Cultural. Porém, com novos argumentos de que a barbatana de tubarão teria propriedades afrodisíacas e benéficas à saúde humana, acabou sendo dissociado do costume elitista. Ainda sim, o consumo ficou restrito ao mercado dito “terapêutico” (não há provas científicas de suas propriedades medicinais).
O cenário se alterou novamente no final dos anos 80, quando as mudanças culturais e econômicas deram início a uma transformação na China. Uma nova classe média e uma nova classe alta surgiram. Com elas, cresceu o hábito de consumo de sopa de barbatana de tubarão. Desde então, o prato passou a ser servido também em banquetes, recepções e jantares de negócios. Mais de 300 milhões de chineses ascenderam às classes média e alta graças ao forte crescimento econômico do país e abraçaram um dos símbolos da antiga nobreza, a sopa de barbatana de tubarão. Em virtude disso, a demanda explodiu, elevando a procura e fomentando o mercado de barbatanas.
Foto: OceanaLX
Antes, a pesca de tubarão, que sempre foi uma atividade lícita, era direcionada a sua carne, sendo as barbatanas somente mais uma parte do animal a ser aproveitada. Porém, hoje, o principal são justamente as barbatanas, valorizadas pela explosão de consumo e pela facilidade de se transportar e conservar. Elas valem bem mais do que um tubarão inteiro! Em virtude disso, o animal muitas vezes é capturado apenas para a retirada de suas barbatanas. Então seu corpo mutilado, muitas vezes vivo, é atirado ao mar. Como um barco comporta uma enorme quantidade delas, dispensando refrigeração, a prática vem se tornando abusiva e preocupante. Estima-se que, atualmente, mais de 100 países estão envolvidos no finning, incluindo o Brasil, matando cerca de 70 milhões de tubarões por ano!
Este tipo de pesca é predatória e insustentável, colocando em risco a sobrevivência das populações de tubarões, o que afetará, inevitavelmente, a nós, seres humanos. Infelizmente, o homem tem dificuldades em vislumbrar o futuro e perceber que preservar é manter o meio sustentável. Então, há de se pensar nas próximas gerações! O que será de nossos descendentes se não houver mais tubarões nos mares? Quando há um desiquilíbrio na cadeia alimentar, todas as populações daquele ecossistema e as que dele dependem (o homem, por exemplo) são afetadas. A cadeia alimentar começa com organismos autotróficos como as microalgas fotossintetizantes nos mares, componentes do fitoplancton, que é responsável pela maior parcela de oxigênio gerado e de gás carbônico absorvido no planeta. O fitoplancton serve de alimento para o zooplancton, composto de animais microscópicos e larvas de peixes, crustáceos, entre outros animais, que por sua vez alimentam pequenos peixes como as sardinhas. Peixes maiores, como o atum, alimentam-se das sardinhas e de outros pequenos peixes. Já os “top” da cadeia alimentar, como tubarões e baleias, comem os peixes maiores. Os corpos mortos de qualquer animal marinho e suas fezes são decompostas por bactérias e transformadas em matéria inorgânica que será utilizada pelo fitoplancton, reiniciando a cadeia. Os tubarões têm como um dos seus principais alimentos as focas e peixes de grande porte, que sem o controle natural imposto pelo grande predador, as populações de peixes menores podem ser drasticamente comprometidas, afetando diretamente a pesca. Temos que nos ater à ideia de cadeia e de que a reação não para por aí, podendo chegar até a base, o fitoplancton!
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Foto: madmermaids.com
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Felizmente, hoje há diversas leis que coibem esta prática. No Brasil há a Portaria nº 121/1998 que proíbe o descarte, no mar, das carcaças de tubarões que tiveram suas barbatanas retiradas, e permite apenas o transporte a bordo ou o desembarque de barbatanas em igual proporção ao de carcaças. Para verificar essa proporcionalidade, o peso total de barbatanas não pode exceder 5% do peso total de carcaças. Já nos EUA, a lei é mais simples e objetiva: exige-se que todos os tubarões capturados legalmente em águas norte-americanas sejam desembarcados com suas nadadeiras íntegras e no corpo do animal, o que não deixa qualquer margem de dúvida. Alguns estados americanos proíbem a comercialização das barbatanas de tubarão.
O presente artigo não tem como objetivo apenas denunciar a sangrenta prática do finning, ele também tem o intuito de informar e trazer à luz a importância de preservar uma espécie e, consequentemente, à proteção de todo um ecossistema, mantendo nossos mares saudáveis. Graças a um pedaço da costa sul da África, que forneceu alimento aos sobreviventes de uma grande catástrofe climática entre 195.000 e 123.000 anos atrás, o Homo sapiens pode continuar a andar sobre a crosta terrestre.
Na realidade, a natureza, por mais agredida que seja, ela se modificará e o planeta continuará, o que não vale para a raça humana. Portanto, preservar nossos mares é a chave para garantir nosso futuro.
(c)2012 Flavio Porto
Fontes bibliográficas:
GANME, Gabriel & SZPILMAN, Marcelo. Por que os tubarões estão desaparecendo dos oceanos. MERGULHO: Grupo1 Editora, ano 15, nº 183, p. 56 -61, outubro de 2011.
SZPILMAN, Marcelo. INSTITUTO AQUALUNG, institutoaqualung.com.br/FINNING.html, 15 de fevereiro, 2012.
MAREAN, Curtis W. NATURE, www.nature.com, 15 de fevereiro, 2012.


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